Resolver

Certo dia resolvi escutar. De longe se ouvia uma voz a sussurrar, acalmei a alma, respirei bem fundo e decidi me atentar, me conectei com tudo que percorre meu radar, sintonizei minha frequência para poder captar a energia que circunda o meu ar, hoje atraio tudo aquilo que simpatiza com minha singularidade.

Um dia resolvi mudar. Mudei meus longos cabelos pintados, meu semblante apagado e disperso, mudei a maquiagem dos olhos e o estilo defasado. Substitui um discurso velho por um novo, sem mais pontos finais, hoje me permito reticências…

Chegou a hora mudar. Mudei minha risada abafada, meus argumentos falidos, mudei minhas desculpas esfarrapadas. Abstraí tudo aquilo que não agregava ou fazia falta e me repaginei com um novo sorriso estampado na cara.

Um dia resolvi deixar. Deixei meus medos abstratos de lado, os amores no passado, deixei de molhar os pés no raso e mergulhei ao fundo de minha particularidade, afinal, quem eu era de verdade?! Extrai toda insignificância do que é ser e senti toda uma vastidão do que é ser eu, hoje me permito desapegar para que o novo, puro e abundante possa entrar.

Chegou a hora de aceitar. Abracei a causa sem justificativa, sem nem questionar se havia discordância sobre mim, me calei no instante em que a intuição me tocou, preenchendo lacunas sobre dúvidas e receios. Não me sentindo mais sozinha, hoje estou muito bem acompanhada de mim. Agora posso transbordar.

Caroline Gonçalves.

Ficar.

Calmamente olho ao redor e me esbarro com tamanho pavor.
Me deparo com o espelho, mas não reconheço meu fervor.
Isso que transborda em mim, vem de mim ou de você?!
A sua dúvida perpetua dentro do meu eu.
Agora eu sou eu e sou você.
E nesse desconexo de sentimentos, surge a sutileza dos atos, a leveza nos passos e a sintonia da alma.
Com calma e clamor, pinto o horizonte de uma só cor.
Com um tom rubro negro, tingo o céu de vermelho e sinto o medo se transcorrer com o pincel ainda fresco, sente o cheiro do ar ameno?!
Sento-me então em um belo gramado, ainda verde do verão, e me pergunto, pra onde vou então?
Sentindo a energia da terra vibrar sobre minhas mãos, me conecto em sintonia com o pulsar do coração, vibrando e liberando capacidades eloquentes adormecidas em meu ser, agora eu sou mais eu do que sou você.
Conduzida a devaneios, jurando acreditar nessa realidade abstrata, abstraio tudo que se correlata inapropriado ao ser, seja em crescer, obsolescer e não deixar prevalecer a essência desse desobedecer.
Me afago em seu gostar e me permito novamente naufragar em um sólido espaço de amar, dando descerramento a
um ciclo longe de ultimar, de se encerrar.
Já passou a hora de se encontrar, não me deixe esperar, pois sou leve como o vento e com ele posso voar.

Caroline Gonçalves.