Resolver

Certo dia resolvi escutar. De longe se ouvia uma voz a sussurrar, acalmei a alma, respirei bem fundo e decidi me atentar, me conectei com tudo que percorre meu radar, sintonizei minha frequência para poder captar a energia que circunda o meu ar, hoje atraio tudo aquilo que simpatiza com minha singularidade.

Um dia resolvi mudar. Mudei meus longos cabelos pintados, meu semblante apagado e disperso, mudei a maquiagem dos olhos e o estilo defasado. Substitui um discurso velho por um novo, sem mais pontos finais, hoje me permito reticências…

Chegou a hora mudar. Mudei minha risada abafada, meus argumentos falidos, mudei minhas desculpas esfarrapadas. Abstraí tudo aquilo que não agregava ou fazia falta e me repaginei com um novo sorriso estampado na cara.

Um dia resolvi deixar. Deixei meus medos abstratos de lado, os amores no passado, deixei de molhar os pés no raso e mergulhei ao fundo de minha particularidade, afinal, quem eu era de verdade?! Extrai toda insignificância do que é ser e senti toda uma vastidão do que é ser eu, hoje me permito desapegar para que o novo, puro e abundante possa entrar.

Chegou a hora de aceitar. Abracei a causa sem justificativa, sem nem questionar se havia discordância sobre mim, me calei no instante em que a intuição me tocou, preenchendo lacunas sobre dúvidas e receios. Não me sentindo mais sozinha, hoje estou muito bem acompanhada de mim. Agora posso transbordar.

Caroline Gonçalves.

Observar.

Eu vejo vidas todos dos dias.
Vejo vidas sem vidas, vejo vidas entristecidas.
Eu vejo rostos todos os dias, rostos envelhecidos e cansados da rotina.
Vejo carros todos os dias, carros que circulam tão cheio de pessoas vazias.
Eu observo a correria do dia a dia, pessoas esquecidas esquecendo da própria vida.
Eu ouço vozes todos os dias, vozes distantes, abafadas e afogadas pela melancolia.
Observando passos todos os dias, noto pegadas pesadas e abaladas sem um rumo certo na vida.
Está tudo tão cheio de nada e com tão pouca alegria.
São vozes que sussurram, passos que circulam e barulhos que nos ensurdecem a cada segundo.
Vejo cidades de pedras que nos tiram o ar e há tão pouca árvore para respirar.
Somos um grande formigueiro como formigas independentes,
que atacam-se uns aos outros e ainda roubam seus pertences.
Dizem que somos fracos, tão fracos quanto somos insistentes,
a insistência é tão chata quanto estilhaços nas mente.

Então, mais um dia se passou.
Será mesmo que você se reinventou ou simplesmente continuou?!

Caroline Gonçalves.