Perspectiva.

Incerta sobre meus pensamentos, vagueio por aí sem direção. Ao desfilar por dentro de mim, me deparo entre paredes pixadas de puro horror e nostalgia, são memórias esquecidas, memórias arquivadas, intituladas minhas experiências.

Estou vivenciando-me em pura lucidez. As paredes riscadas, aranhadas e maltratadas, agora em ruínas, acento tijolo por tijolo pintando tudo em tom de branco, só para dar impressão de maior.

E com esse espaço que me abre, me desrompe uma vastidão de solidão. Que inércia incumbida. Como permitir tais sentimentos defasados ao meu ser, sendo que me deparo em abundância de companhias.

Ao mesmo que me sinto ingrata pelo que me é dado, sinto amor e apreço por tudo que já houvera conquistado. Como posso ser tão contraditória a mim, questionando-me até o fim.

Fingindo acreditar ser normal, me faço racional e me ponho em suma prioridade. Hora de entender quem eu sou de verdade.

Sou nada além de uma extensão do que idealizo, logo, sou a essência do meu desejo. Desejo soberbo sobre tudo que anceio e almejo, tudo dentro do meu preceito.

Sentindo estar fora de percurso, saio dos eixos e entro em colapso me pondo à deriva de um precipício. Vou me jogar e contar com a sorte.

Que sorte a minha, era só questão de perspectiva. Agora tudo faz sentido. “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”

Caroline Gonçalves.

Resolver

Certo dia resolvi escutar. De longe se ouvia uma voz a sussurrar, acalmei a alma, respirei bem fundo e decidi me atentar, me conectei com tudo que percorre meu radar, sintonizei minha frequência para poder captar a energia que circunda o meu ar, hoje atraio tudo aquilo que simpatiza com minha singularidade.

Um dia resolvi mudar. Mudei meus longos cabelos pintados, meu semblante apagado e disperso, mudei a maquiagem dos olhos e o estilo defasado. Substitui um discurso velho por um novo, sem mais pontos finais, hoje me permito reticências…

Chegou a hora mudar. Mudei minha risada abafada, meus argumentos falidos, mudei minhas desculpas esfarrapadas. Abstraí tudo aquilo que não agregava ou fazia falta e me repaginei com um novo sorriso estampado na cara.

Um dia resolvi deixar. Deixei meus medos abstratos de lado, os amores no passado, deixei de molhar os pés no raso e mergulhei ao fundo de minha particularidade, afinal, quem eu era de verdade?! Extrai toda insignificância do que é ser e senti toda uma vastidão do que é ser eu, hoje me permito desapegar para que o novo, puro e abundante possa entrar.

Chegou a hora de aceitar. Abracei a causa sem justificativa, sem nem questionar se havia discordância sobre mim, me calei no instante em que a intuição me tocou, preenchendo lacunas sobre dúvidas e receios. Não me sentindo mais sozinha, hoje estou muito bem acompanhada de mim. Agora posso transbordar.

Caroline Gonçalves.

Cansaço.

Me sinto cansado. Cansando como jamais estive antes, sinto o cansaço em meus olhos que pesam uma tonelada. Sinto cansaço em meus braços que se limitam a alcançar o céu. Sinto cansaço em minhas pernas que me deslocam sem nenhuma pressa. Sinto cansaço em meus pés que me sustatam em qualquer viés. Sinto cansaço em meus ossos que se luxam abruptamente sem qualquer remorso. Sinto cansaço em meus dedos que se estalam como galhos secos. Sinto cansaço em minha voz que trêmula falha sem som sem sol. Sinto cansaço em meus dentes que rangem e esfarelam como abrasão, erosão, abfracao. Sinto cansaço em minha mente que se embaralha e se embaraça como névoa densa . Sinto cansaço em meus cabelos que caem ao chão sem qualquer intenção. Sinto cansaço em minha pele que se enrruga como se fosse um tecido amarrotado. Sinto cansaço em minhas bochechas que se contraem ao sorrir sem qualquer sentença. Sinto cansaço na alma que se escorre e transcorre a cada ida e volta. Sinto cansaço em ser, mas por hoje resolvi viver!

Caroline Gonçalves.

Passou.

Quando a saudade apertar e os olhos transbordar, o coração gritar e a lembrança se apagar o seu telefone irá tocar, mas quem será?
Será a sua calma a retornar, o amor a fluviar e o desgosto a amargar…

A ansiedade que insiste em me rodear e me sufocar, o medo de errar, jamais reclamar e se manter feliz… Felicidade inexistente que está presente somente por dentro, com medo de florescer e crescer, com medo de ser, de querer, de seguir.

Olhos cansados e vazios, olhos que outrora eram cheios de vida e dúvidas.
Será eu ter perdido o rumo da vida?!
Algo me rodeia, sinto se esgueirar, se espremer ao me circundar. Será eu estar sendo assombrada pelos meus medos? Quais são esses medos? Não os vejo, somente sinto.

Quero poder remar, coordenar e comandar tudo aquilo que posso alcançar, seria egoísmo querer guiar o próprio corpo ao mar, ao ar, pra onde a onda rolar e por fim quebrar, podendo me desfragmentar e depois me remontar, com sal, pedras e estrelas do mar. Talvez assim, eu possa enfim brilhar e acreditar que no novo dia que chegar, as coisas possam se acalmar e por fim, eu descansar.

Caroline Gonçalves