Abastar

Abster-se da necessidade de se completar com terceiros é saber valorizar a significância da sua existência. Acolha e acuda a sua alma, dê prioridade a sua paz. Culmine e cauterize essa carência impregnada em seu interior, arranque essa indigência caracterizada de solidão, preencha-se de solitude e transborde em comunhão com a sua singularidade, seja o seu amor de verdade.

Não se complete com metades, sejas previamente inteiro consigo e conseguirás verter de onde for. Sejas nascente e beba de sua própria água e sacie a sua sede com calma, gota por gota se inunde de pura satisfação e gratificação, esse é o seu momento de contemplação, vislumbre com emoção e se comova com sua condição de libertação, é hora de abraçar o seu coração.

Renuncie suas expectativas sobre o outrem, não dependa dessa necessidade de fantasia, não caleje uma vontade ilusória, não alimente futuras decepções, não fulmine expectações, não sabote seu interior com preposições, não autorize ninguém a esperar nada de você e não espere nada de ninguém também. Desconstrua essas estruturas fictícias e se surpreenda com o belo e inevitável acaso, dê vazão a vida e deixe fluir sem conjectura, afinal o ideal é por definição, inalcançável.

Caroline Gonçalves.

Falta.

Estou emaranhada, coberta por um novelo que tecela sobre mim sentimentos mau compreendidos, me pondo em um estágio de contentamento descontente, acumulando dúvidas sobre o que sentir, ser e fazer. E nesse estado de entendimento, entendo o desconhecido e sem saber dizer sigo em frente, absorta pelos meus pensamentos, me proporcionando novos sentimentos e descobrindo novas possibilidades sobre o tempo.

Sentindo esse espaço  se abrir, tomo uma iniciativa para prosseguir, me instigando a perseguir incisivas decisões, soldando tudo em puro chumbo so pra ter a certeza de pés firmes no chão. Respiro com calma e deixo o ar tomar conta de cada lacuna do meu ser, respiro fundo e sinto bem ao fundo de meus ossos o estalar da alma para um novo despertar. É hora de acordar, o sol já vai raiar para um novo dia começar!

Caroline Gonçalves.

Isso.

Isso, sem nome ou endereço que explode do peito, como uma onda em desalento sem nem ter despeito pelo próprio sujeito. Isso que habita inconscientemente que pulsa latente e desabrocha calmamente. Isso que por horas rasga e estrangula, massacra e sepulta uma vastidão de sentimentos. Isso que vem e vai como uma descoberta do que é sentir. Sentir isso, é como se você morresse e vivesse ao mesmo tempo e inconscientemente você despertasse para somente descobrir sobre isso. Isso que explode no leito do peito como gás em combustão, isso que sedmenta, rudmenta como lava em erupção, transbordando um sentimento de erudição, um despertar, uma ascensão. Desafogue e se desdobre sobre esse mar de vastidão, seja isso que habita em você e transborde em todo amanhecer.

Caroline Gonçalves.

Fotografia: @gayastudios

Cansaço.

Me sinto cansado. Cansando como jamais estive antes, sinto o cansaço em meus olhos que pesam uma tonelada. Sinto cansaço em meus braços que se limitam a alcançar o céu. Sinto cansaço em minhas pernas que me deslocam sem nenhuma pressa. Sinto cansaço em meus pés que me sustatam em qualquer viés. Sinto cansaço em meus ossos que se luxam abruptamente sem qualquer remorso. Sinto cansaço em meus dedos que se estalam como galhos secos. Sinto cansaço em minha voz que trêmula falha sem som sem sol. Sinto cansaço em meus dentes que rangem e esfarelam como abrasão, erosão, abfracao. Sinto cansaço em minha mente que se embaralha e se embaraça como névoa densa . Sinto cansaço em meus cabelos que caem ao chão sem qualquer intenção. Sinto cansaço em minha pele que se enrruga como se fosse um tecido amarrotado. Sinto cansaço em minhas bochechas que se contraem ao sorrir sem qualquer sentença. Sinto cansaço na alma que se escorre e transcorre a cada ida e volta. Sinto cansaço em ser, mas por hoje resolvi viver!

Caroline Gonçalves.